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Geração do Crack - A Noticia da VEJA há 22 anos atrás parece NOVA - Parte V

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Reportagem publicada em 1º de junho de 1988

No Rio o pó cala os governantes

Os traficantes de drogas atiram, avançam
e conquistam a legalidade de fato

Diante do súbito falecimento de Sérgio Ferreira da Silva, seus principais sócios reuniram-se para discutir quem iria assumir os negócios - uma atividade que fatura meio bilhão de cruzados por ano e que há tempo cresce no promissor mercado carioca. O primeiro na linha sucessória, Robson da Silva, foi elogiado pelo espírito de iniciativa, mas acabou derrotado - seria uma pessoa temperamental demais para assumir um cargo de tamanha responsabilidade. Outro pretendente, Cassiano Barbosa da Silva, também perdeu a vaga - argumentou-se que com apenas 24 anos e pouco tempo de experiência na direção faltava-lhe maturidade para o posto. O debate foi encerrado, contudo, quando o patriarca do grupo, Dênis Leandro da Silva, telefonou do prédio onde vive, recluso e famoso, para anunciar quem era seu candidato. A partir daquele instante, o apoio ao nome de Ednaldo de Souza, de apenas 22 anos, começou a crescer, até se transformar numa opção unânime para chefiar as atividades do grupo.
Quarenta e oito horas depois, a imprensa carioca foi convocada para a cerimônia de posse, na Via Apia, na Zona Sul da cidade, a centenas de metros do finíssimo campo do Gávea Golf Clube e menos de 1 quilômetro do apartamento em que vive o ex-presidente João Figueiredo. Como sempre ocorre nessas ocasiões, circulavam rumores de que havia, entre eles, uma luta pelo poder - por isso, Naldo (Ednaldo), Buzunga (Robson) e Cassiano chegaram a se unir para uma pose diante dos fotógrafos. Os três prometeram zelar pelo cotidiano da população mais humilde, e um deles chegou a anunciar que, dali para a frente, iria começar uma etapa muito diferente no país. "A revolução social vai começar nos morros", assegurou Cassiano da Silva. O triunvirato foi empossado com seus instrumentos de trabalho à mostra. Naldo, como sua metralhadora Uzi, de fabricação israelense, capaz de disparar dezesseis tiros por segundo, chamada de "Jovelina" e que funciona como uma espécie de faixa presidencial naquele território. Buzunga, com uma submetralhadora importada, presa à cintura. Cassiano, por sua vez, também exibia uma metralhadora. Desde a semana passada, esses três homens estão no comando da quadrilha de tráfico de drogas do Morro da Rocinha, formada por oitenta pessoas, ramificando-se em várias centenas de protetores - a maior do Rio de Janeiro.
BANDIDOS VISÍVEIS - No momento em que Naldo empunhou a "Jovelina", como carinhosamente chama sua metralhadora, os funcionários públicos sustentados pelo contribuinte para fazer valer as leis na cidade viviam suas jornadas na modorra física e confusão mental habituais. Literalmente não se davam conta de que são autoridades numa cidade onde o crime, na sua forma suprema de prepotência, assume o rosto da normalidade. A 15 quilômetros da Via Apia, fica a sede da Secretaria de Segurança Pública, onde o chefe do órgão, advogado Hélio Saboya, se dedicava, na semana passada, ao lançamento de uma campanha preventiva - contra os balões juninos, brincadeira que pode custar às pessoas que tentarem lançá-los na cidade uma multa de 22.000 cruzados. Como se não tivesse nada a ver com o assunto, para o prefeito Saturnino Braga, que tem seu palácio a 5 minutos de automóvel do Morro da Rocinha, a cidade também atravessou um dia normal. "O combate ao tráfico de drogas não é atribuição da prefeitura", afirma Saturnino, certo de que nada tem a ver com isso também.
Ao contrário da maioria dos brasileiros, que foram informados a respeito da sucessão no Morro da Rocinha pelos jornais e pelas câmaras de TV, que numa noite até mostraram Naldo matraqueando "Jovelina" para o alto, o governador Wellington Moreira Franco só soube da novidade pelos assessores. Ele estava em Lisboa, participando de um seminário. Moreira Franco jantou com líderes sindicais, debateu com empresários e deliciou-se diante de obras clássicas em exposição nas livrarias de Lisboa. Para o triunvirato que descarrega cocaína pela Zona Sul do Rio, Moreira Franco mandou um recado tranqüilizador para si próprio. "O tráfico de drogas é um crime da área federal", afirmou, já que também acha que nada tem a ver com o assunto.
"A Rocinha tornou-se uma região onde a polícia, a lei e a ordem não entram", afirma o ministro da Justiça, Paulo Brossard. "Até parece o cais do porto de Hong Kong, tempos atrás, onde os criminosos desapareciam no meio dos barcos. Agora, no Rio, eles somem entre os barracos", acrescenta, sem saber que há quase 10 anos a Rocinha deixou de ser aquela favela de barracos temíveis ou poéticos. Hoje, das 14.000 residências do morro a maioria é de casas de alvenaria. Chamá-la de favela chega a ser uma impropriedade. É um bairro popular, feio, desgracioso e desengonçado que os governos municipal e federal preferem ver como favela misteriosa simplesmente para poder deixá-lo ao abandono e ao crime.
Se não há uma só autoridade que se sinta ofendida pelo fato de uma quadrilha de traficantes ter mudado a sua direção com uma cerimônia semelhante à da posse de um novo ministro, do outro lado do guichê, onde estão os contribuintes, há quem reclame: "A polícia é paga para garantir a defesa do cidadão e tem de subir o morro", afirma Carlos Américo Sampaio Vianna, presidente do Sindicato dos Hotéis do Rio de Janeiro. "Se a Rocinha não está ao alcance da polícia, é porque há algo de muito estranho com ela, a polícia", acrescenta.
LADRÕES DE TV - A menos de 3 quilômetros do local onde foi realizada a cerimônia de posse do triunvirato de criminosos, funciona a 15ª Delegacia de Polícia. Ali, dão expediente setenta policiais - equipe equivalente, em número, ao total de integrantes da quadrilha da Rocinha. Na semana passada, os investigadores corajosamente prenderam um menino de 11 anos, que mora na Via Apia, a mesma onde Buzunga, Naldo e Cassiano posaram para os fotógrafos. Seu crime? Roubara uma mochila cheia de material escolar. O garoto está preso, numa instituição de pequenos delinqüentes. A grande proeza da semana na delegacia foi a prisão de João Luiz de Almeida, 24 anos, e a de Selmo de Carvalho Almeida, também de 24 anos, apanhados quando tentavam roubar um aparelho de TV de uma residência no Jardim Botânico.
"Não conheço os traficantes de droga, mas sei que eles andam muito armados", afirma João Luiz de Almeida. "Como a gente só anda de faca, acaba no xadrez", acrescenta. Contra a quadrilha de traficantes a delegacia não recebeu qualquer telex ou telefonema. Ela não recebeu sequer uma sugestão da Secretaria de Segurança ou do palácio do governo para perguntar ao cidadão Naldo se é verdade o que a imprensa diz: que ele é traficante de entorpecentes. Não se deram também ao trabalho de verificar que o triúnviro Buzunga tem a sua procura dois mandados de prisão. Condenado a 25 anos por assalto e um homicídio, Buzunga responde, ainda, a três processos por assassinato - e vários outros por tráfico de drogas. Os mandados, porém, são de papel, e os papéis, na polícia do Rio de Janeiro, andam pouco quando lhes cai em cima o pó. Se isso não bastasse, Buzunga é das poucas pessoas que podem ser presas em flagrante a qualquer hora, pois não vai a lugar algum sem um saquinho de cocaína para consumo próprio e sem a submetralhadora carregada para consumo alheio (é acusado de, há dez dias, ter morto uma mulher com um tiro na cabeça).
"O monstro cresceu e agora fica difícil agir", afirma o delegado Werther Losso, da 15ª Delegacia. A dificuldade maior, no caso, é saber até onde o monstro irá crescer - quando as autoridades encarregadas de combatê-lo acham que a melhor coisa a fazer é fingir que o problema não lhes diz respeito. "Sinto-me em pânico vendo isso acontecer", afirma Carlos Maurício Martins Rodrigues, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Estado, a OAB-RJ. "Os poderes públicos têm culpa e responsabilidade pelo que está acontecendo, e, se continuarem omissos, a tendência é a situação se agravar", acrescenta. "A sociedade carioca vive um agudo processo de inversão de autoridade", afirma Carlos Firme, presidente da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário, a Ademi. "Como cidadão, fico estarrecido de ver traficantes dando entrevistas livremente, posando para fotografias, sem que nada lhes aconteça. Se eles fazem isso, é porque alguma coisa está deixando de ser feita."
Na realidade, o que está em curso, nos subterrâneos do Rio de Janeiro, é um processo sem paralelo em qualquer outra grande cidade brasileira. Trata-se, aí, do amadurecimento de um antigo processo de criminalização do aparelho do governo, onde a polícia não age, em grande parte por cumplicidade, e as autoridades fazem vista grossa, por conforto. Há capitais onde funcionam grandes quadrilhas de traficantes, como São Paulo e Porto Alegre, por exemplo. Em outras, como Manaus, funcionam cassinos clandestinos, e também está de pé, em boa parte dos Estados brasileiros, a célebre caixinha que assegura a contravenção do jogo do bicho. E há lugares, como o Pará e o Paraná, onde esse tipo de pacto com a contravenção foi feito publicamente pelas autoridades. Em Goiás, Mato Grosso e no sul do Maranhão, há pistoleiros a serviço de proprietários de terra nos dias ímpares e da polícia nos dias pares. No Paraná, bem como na Amazônia, os contrabandistas têm poderosas estacas fincadas na administração. O aspecto peculiar do Rio de Janeiro, contudo, é que ali o crime engordou em proporções gigantescas, assumindo a fisionomia de um drama intolerável. Só no Rio a impunidade tem sua versão publicitária e também só lá as autoridades acham possível se comportar como se o problema não fosse delas. Desde Estácio de Sá, nenhum governante carioca deixou de prometer repressão ao crime. Desde Leonel Brizola, nenhum governador ou prefeito do Rio deixou de defender o absenteísmo oficial diante das quadrilhas de tóxicos. Por trás dessa atitude, circula uma visão segundo a qual a venda de um papelote de cocaína seria uma operação limpa entre um traficante de drogas e um consumidor - não fosse o estorvo da lei, o comércio seria idêntico a comprar um Big Mac numa loja do grupo McDonald's. As pessoas que residem nas proximidades dos pontos-de-venda de cocaína, no entanto, conhecem de perto as conseqüências dessa patologia legal.
Nas vizinhanças da Rocinha, há moradores ilustres que compõem uma larga fatia daquele elenco de personalidades responsáveis pela maior parte do charme do Rio de Janeiro. Dona de um apartamento num dos prédios mais bonitos do lugar, o Méditerranée no bairro de São Conrado, a cantora Maria Creuza vive cercada por um reforçado esquema de segurança - até bem pouco tempo, uma matilha de cães pastores alemães era utilizada na vigilância do edifício. Com medo de assaltos, Maria Creuza raramente vai à Praia do Pepino, que fica nas proximidades, e também não gosta de freqüentar a areia de outros lugares da cidade. "Em qualquer lugar, temos de estar sempre muito atentos", diz ela. O cantor Erasmo Carlos, que tem uma casa à beira da Lagoa de Marapendi, a 3 quilômetros da Rocinha, também se confessa inquieto com o problema. "Já vi cadáveres boiando, e já escutei muito tiroteio", afirma. "O que me assusta não é a população da Rocinha, pois a maioria das pessoas que vive ali é gente honesta. O problema é a violência."
O que há de peculiar, no Rio de Janeiro, não é apenas aquilo que os bandidos fazem - mas também como o fazem. Funciona, ali, uma grossa corrente de solidariedade na impunidade, que começa nas delegacias de bairro, atravessa uma corporação de 10.000 homens, penetra nas penitenciárias e, por fim, anestesia a cúpula do governo. As quadrilhas que controlam o tráfico de drogas na cidade são bem menos ricas do que seus membros gostariam. Seus comandantes são marginais bem menos sofisticados do que dão a entender suas entrevistas. O fato, contudo, é que numa cidade aflita por um processo de decadência urbana desproporcional em relação as suas dificuldades econômicas e sociais o crime do Rio de Janeiro assinala um caso indiscutível - e perigoso - de progresso linear. Há menos de vinte anos, a população carioca participou de um Carnaval que ficou célebre: a maconha estava cara, enquanto a cocaína era oferecida com desconto - numa banal operação de mercadologia. Mais tarde, nasceram os grandes traficantes, que corrompem a polícia e deixam o cidadão comum entregue à própria sorte.
O CASO MEDELLÍN - Crescendo aos saltos, o problema do crime carioca, hoje, é saber até onde poderá chegar. Até aqui, sua atividade concentra-se gloriosamente estabelecida no comércio da droga. A questão, para o crime organizado, é saber como e quando será possível a junção desse elo à poderosa corrente onde está a produção. Então, bandidos como Naldo serão uma lembrança amena de uma fase histórica, quase amadorística. Se conseguirão juntar-se à produção, não se sabe. O que se sabe é o que acontece com os países onde os produtores das drogas assumem o comando do crime. O resultado é Medellín, o cartel colombiano onde os traficantes mantêm atividades que faturam 1 bilhão de dólares por ano, controlam a polícia e a Justiça e impõem seus representantes diretos no primeiro escalão do governo. O governador Moreira Franco gosta de repetir que o Rio não produz cocaína, esquecendo-se de que Medellín também não. Ela é a capital de uma rede que opera na mata colombiana.
No coração do drama que se desenha no Rio de Janeiro, há uma velha confusão detectada pelo último grande ladrão brasileiro, Lúcio Flávio Villar Lírio, morto em 1975, cujo ideário era resumido em poucas palavras. "Polícia é polícia, bandido é bandido", dizia ele. A maior dificuldade, hoje, é que vai se tomando cada vez mais problemático distinguir uma situação da outra. Na semana passada, por exemplo, o serviço da alfândega do Aeroporto do Galeão apreendeu a bagagem de um motorista da polícia que retomava de viagem a Miami, Jorge da Silva Caldas. Em suas malas, não havia roupas nem perfumes - mas um carregamento de seis escopetas, duas pistolas e um fuzil-metralhadora AR-15.
Para se ter uma idéia de como andam confusas as linhas que separam o agente da lei do empregado do crime, basta reparar que o policial Jorge Caldas não foi sequer detido no Aeroporto - nem ao menos interrogado. Conseguiu ser liberado pelos funcionários da Receita que puseram as mãos em sua carga - e trataram do caso com a inocência de quem descobriu um passageiro transportando aparelhos eletrônicos proibidos pela reserva de mercado da informática.
"GUERRA CIVIL" - "Já começou a guerrilha urbana no Brasil", afirma o senador Afonso Arinos de Melo Franco, do PFL. "É uma guerrilha especial, sem ideologias e sem fundo religioso, mas baseada no banditismo sem sentido." Uma outra dificuldade com a qual estão às voltas as autoridades do Rio de Janeiro consiste numa sociologia criada nos botequins instalados nas proximidades do asfalto - como uma tentativa de enxergar as profundezas daquilo que se passa nos morros. No passado, o prefeito Saturnino Braga, por exemplo, já dera sua contribuição a essa escola de pensamento ao proclamar, no calor da campanha eleitoral: "Prefiro o voto dos bicheiros ao da elite", declarou, numa frase que sintetiza todas suas críticas e elogios a pessoas que guardam tantas semelhanças e tantas diferenças entre si como Castor de Andrade e o empreiteiro Sebastião Camargo. Na semana passada, os eleitores preferenciais de Saturnino deram uma demonstração de como gostam de resolver suas disputas por dinheiro e áreas do mercado. Tarde da noite, quando voltava para casa, no Leblon, Marco Aurélio Corrêa de Mello, filho do banqueiro do bicho Raul Capitão, foi fuzilado por dois pistoleiros que o tocaiavam nas vizinhanças.
"A marginalidade e a injustiça social estão na raiz desse processo de violência", afirma o prefeito do Rio. "Esse é o início de um processo de guerra civil informal entre os marginalizados e a sociedade formal", acrescenta Saturnino. Apocalíptica, a teoria de que por trás da metralhadora de Naldo e dentro do saquinho de cocaína de Buzunga estaria escondido um conflito entre riqueza e pobreza, por exemplo, repousa numa confusão delirante a respeito, justamente, de ricos e pobres. Achar que as injustiças sociais levam à criminalidade entre os pobres é apenas dar um verniz esquerdista à velha idéia de que todo miserável é um marginal em potencial. Basta subir o Morro da Rocinha e conversar com pessoas que residem ali para saber o verdadeiro lugar dos traficantes e das autoridades no cotidiano da população. Para o padre Manoel Manangão, 36 anos, criado no lugar, os 200.000 moradores da Rocinha estão naquela clássica situação do marisco, que sofre entre a rocha, representada pelos traficantes, e a água, que seriam a polícia e os preconceitos.
"Os políticos vêm aqui em épocas de eleições e prometem mundos e fundos, mas não cumprem nada", afirma o padre Manangão. "Quando esse povo lutar pelo que merece, não vai ter traficante nem governo capaz de segurar", acrescenta. Também é possível decifrar o caráter falacioso da teoria da guerra civil fazendo um exame no outro lado da cidade - com a vantagem de que, nesse caso, nem é preciso ir até a Rocinha. Antes de ser preso, era no bairro da Tijuca que o chefe da quadrilha do morro, Dênis Leandro da Silva, residia, num apartamento de cobertura, onde pagava um aluguel de 300.000 cruzados por mês, em dinheiro de hoje. Como a maioria dos moradores do Rio, assim que foi possível o traficante deixou o morro para morar no asfalto - junto com a elite.
Na fórmula química que mantém as autoridades anestesiadas, contudo, há um outro elemento teórico - a teoria da chacina. É óbvio que a polícia deveria, ao menos em tese, perseguir bandidos que organizam o tráfico de drogas. Também faz parte da lógica elementar da profissão que, ao descobrir que eles se escondem no Morro da Rocinha, fosse enviada uma equipe de homens para dar buscas no lugar. Por que isso não ocorre? Porque vigora, no primeiro escalão do governo, a convicção de que uma ação desse tipo estaria condenada, previamente, ao fracasso, transformando-se numa chacina de moradores inocentes. Para se defender de uma crítica do ministro Paulo Brossard a respeito do quadro deprimente do crime no Rio de Janeiro, o governador Moreira Franco assumiu o posto de grande padrinho da idéia. "O ministro não devia falar do que não entende", disse o governador. "Se ele conhece um meio de se chegar ao objetivo que sugere sem colocar em risco a vida de centenas de moradores da favela, que mostre o caminho", afirma o governador Wellington Moreira Franco.
Um dos aspectos mais complicados dessa tese é que ela parece funcionar ao sabor das circunstâncias. Em 1986, quando uma visita a Rocinha fazia parte das conveniências da campanha eleitoral, Moreira Franco foi até ali, pessoalmente, num gesto que só produziu ferimentos políticos num cabo eleitoral adversário, o vice-prefeito Jó Rezende, que, com um grito de Tarzã, convocara a população do lugar para impedir a visita do então candidato do PMDB. O ângulo perverso da teoria da chacina é sua conseqüência prática. Significa condenar os 200.000 moradores da Rocinha a um convívio cotidiano com uma quadrilha de traficantes, submeter a população das vizinhanças a um quadro geral de violência - e alimentar um embrião envenenado capaz de corroer o conjunto da máquina do governo. Até agora, o problema das operações policiais contra os traficantes de droga não foi, felizmente, o seu aspecto violento - mas cinematográfico. No ano passado, no Morro Dona Marta, a ação da polícia inundou o noticiário da televisão de imagens espetaculares - foi incapaz, no entanto, de diminuir em um grama o abastecimento de cocaína na cidade. Na semana passada, ouviam-se, novamente, murmúrios de que estava em curso um plano para se realizar uma investida de grande envergadura na Rocinha - o risco, novamente, era a operação produzir altos índices no Ibope e baixa coleta de bandidos.
"A fama da Rocinha não me atinge", afirma a vendedora Maria do Socorro Trajano, 19 anos, criada no lugar, que trabalha numa butique de biquínis em Ipanema. "O grande problema que sinto com as outras pessoas é o preconceito. Comigo, todo mundo só quer falar de violência." A idéia de que a Rocinha seria um condomínio de pessoas fora da lei é uma dessas idéias alimentadas pela conveniência das autoridades e pela ignorância geral. Para quem tem casa no asfalto, a Rocinha tem as cores de um inferno social - característica que leva muitas pessoas a imaginar que é povoada de demônios. Para aquela população humilde, que conseguiu fazer dali um lugar de moradia, idêntico a tantos outros bairros pobres do país, a Rocinha é outra coisa. "Não saio daqui por dinheiro nenhum", afirma o mecânico de automóveis Jacob Kiveip, 36 anos, que passou oito anos construindo sua casa própria.
CASO EXEMPLAR - O drama peculiar ao Rio de Janeiro é este. O governo que não leva a polícia à Rocinha é o mesmo que mantém a população longe de qualquer proteção, à margem dos benefícios assegurados a quem reside fora dali. Pelo apocalipse da guerra civil, ou pelo espantalho da chacina de inocentes, o que se verifica é a competência, infinita, das autoridades para produzir desculpas para não assumir suas obrigações. Toda vez que o crime dá um salto de grandes proporções, pode-se imaginar que é muito difícil combatê-lo. É mesmo - mas a realidade é que basta um policial levar a sério suas funções, ou um procurador se dispor a assumir o posto até o fim, para que ocorra uma mudança nesse quadro.
Há vinte anos, ocorria, em São Paulo, uma situação exemplar. Na história da polícia brasileira, poucos delegados conseguiram acumular tamanho prestígio como Sérgio Paranhos Fleury, que chegou a receber a Medalha do Pacificador, dada pelo Exército, e um diploma de Amigo da Marinha, condecoração da Pasta naval. Herói do regime do AI-5, Fleury ganhou a condição de personalidade inatacável, graças a seu empenho na caça de opositores do governo, que eram submetidos a torturas nos porões do aparelho de repressão. Acusado de envolvimento com quadrilhas que promoviam o tráfico de drogas, Fleury parecia ostentar uma situação privilegiada, daquelas que transformam uma pessoa numa fortaleza de impunidade.
Foi então que, no rastro de investigações a respeito do Esquadrão da Morte, o procurador Hélio Bicudo deu com o assassinato de um bandido chamado "Nego Sete" - dali, chegou em Fleury. Em 1968, quando Bicudo iniciou seu processo, seu alvo não era igual a Naldo, Buzunga ou Cassiano - era muito maior, até porque trabalhava do outro lado. Incansável, Bicudo enfrentou pressões de toda ordem, mas levou o caso em frente. No final, o governo até inventou uma lei especial, a chamada Lei Fleury, para que o delegado não fosse para a cadeia. O desfecho dessa história nunca se saberá. Mas é certo que, se em 1979 Fleury não tivesse caído de sua lancha no litoral de Ilhabela, onde morreu, corria o risco, cedo ou tarde, de ir para a prisão, mesmo levando a Medalha do Pacificador e o diploma de Amigo da Marinha na bagagem e uma agenda de telefones na qual constava o número da residência do atual chanceler Abreu Sodré, que o tratava como amigo.

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